a possibilidade da impossibilidade de mudar (o medo da derrota, a ilusão do poder)

a possibilidade da impossibilidade de mudar (o medo da derrota, a ilusão do poder)
Euler Sandeville Jr.
29 de outubro de 2017

Há muito tempo atrás encontrei uma pessoa querida. Lembro que ela estava muito triste, e dizia-me que estava em vias de se consumir, porque queria muito algo e, aquilo que queria, quanto mais queria, não o tinha, enquanto o que tinha de tanto que o havia querido já não era o que queria. Nessa busca não encontrava e se encontrava não dava certo. Isso se repetia, de formas diferentes às vezes, mas como um destino.

Assim, passou-se o tempo.

Recentemente encontrei novamente essa pessoa. Estava feliz, havia conseguido finalmente tudo o que idealizara. Os olhos brilhavam, das dores não havia mais lembrança. Disse-me: -Encontrei tudo o que queria. Porém, os caminhos da vida nos levam para longe e no começo deste ano novamente encontrei com essa pessoa. E como vai, e coisa e tal, e isso e aquilo.

Mas o olhar era triste, embaçado, pesado.

– O que há?
– Ah, lembra de quando nos vimos, … pois é, deu errado. Talvez não fosse mesmo o que queria. Bem, estou em um beco sem saída… o que tenho não quero, quero o que não tenho, tenho o que não quero; se é que me entende.

Pensei: de fato, na crise as coisas ficaram difíceis, mas ponderar isso de nada ajuda.

Assim, passou-se o tempo.

Ontem nos encontramos novamente! É sempre uma alegria rever as amizades, acompanhar a vida das pessoas a quem queremos bem.

– E aí? Como você está?
– Desisti do que queria. Foi um alívio, não queria mais porque não era o que queria mas não sabia. Agora vejo melhor. Aquilo não era para mim. Ficou claro depois de um tempo. Até que foi bom, depois de um tempo encontrei o que verdadeiramente queria. Bom, sabe como é, né?, achei que tinha encontrado. Acho que era feliz e não sabia… Bom, deu errado, estou triste porque nunca tenho o que quero. Acho que é o destino. É, estou meio triste porque não tenho o que quero…

Essa pessoa estava realmente muito triste, dizia-me que estava em vias de se consumir porque queria muito e aquilo que queria, quanto mais queria, não tinha e não encontrava ou se encontrava não dava certo. Isso se repetia e se repeti,a senão nos acontecimentos, nos seus sentimentos e falas, quase um desatino o destino.

Despedimo-nos. Não menospreze o impasse dessa pessoa de minhas amizades, nem a despreze, porque, muitas vezes, sem o sabermos ou termos consciência, dessa forma mais explícita ou de outra sutil e integrada nas relações, repisamos os próprios passos com roupas novas.

Fiquei pensando na marca e no peso da insatisfação ou da carência como motor que desenha o caminho, que revela um anteparo intransponível ou que estimula a conquista. Há um quê no adulto em sua busca de projeção que lembra às vezes a criança que retém a bola para controlar as amizades, ou naquela criança que senta-se no canto e contempla de longe. O desejo de conquista tão realçado em nossa educação, ao invés da solidariedade, tem a marca da insatisfação e da impotência. E a insatisfação, quando se desmascara diante dos olhos, é como um algoz que se alimenta da própria alma.

A insatisfação só pode se satisfazer na perpetuação de si mesma. Se se satisfizesse para além de si, seria a aniquilação da dor, a anulação da insatisfação, do estado existencial emergente e conhecido. A dor e a mágoa, como a carência, só podem se satisfazer na sua própria multiplicação, porque a sua supressão seria como mutilação e aniquilamento da dor, a perda de contato com a causa perdida e difusa sabe-se lá onde dentro de si, o que, talvez, doa ainda mais. A insatisfação, parecendo indeterminada, é um território conhecido, e sua reprodução é sua única forma conhecida de satisfação.

Satisfazer-se? Nem pensar pelo visto. Mágoa, culpa, carência, medo, tornaram-se um lugar conhecido. A insatisfação é apenas sua porta sem saída. Que não ousem roubar-lhe a porta, que não ousem abrir uma saída no quarto escuro. Tudo o que existe deseja reproduzir-se, perpetuar-se. A insatisfação só pode realizar-se na própria insatisfação. Mudar? Pelo visto, nem pensar, para aquele que está preso na própria insatisfação.

Mas as coisas não precisam ser assim, ainda que as contrariedades façam parte (e devam fazer) de nosso crescimento e de nosso viver. Exatamente por isso lhes digo, por experiência própria, mudar é possível. Não é linear, não é um caminho sempre seguro, muitas vezes não temos as coisas garantidas e experimentamos nossa contradição e incompletude, senão mesmo incapacidade.

Não somos nem seremos perfeitos. Mas não precisamos nos definir pela incapacidade, pela dificuldade, pelo imediato, pelo acontecimento contraditório, tanto quanto não fará sentido em seu momento o definir-se pelo ufanismo de uma fantasia de si, por uma perfeição colada como uma miragem que sacia. Ao contrário, temos possibilidades melhores.

Podemos nos definir pelo caminho, no caminhar, no aprender, no superarmo-nos. Se não desistirmos, não nos colocarmos na complacência de nossos próprios erros, medos e incapacidades, nem na ilusão de uma superioridade sempre fútil e egoísta, poderemos levantar os olhos e ver mais longe, o que passou, mas especialmente o que desejamos por vir e tomar forças, nos erguermos para retornar ao caminho.

Mudar, para melhor, claro, segundo valores mais sólidos e uma visão espiritual dos caminhos do nosso Criador, é possível, vale a pena e é nossa melhor condição de realização.

Rio e paisagem. Foto de Euler Sandeville Jt., 2010, Caraça.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s