o bom e o mau governo

O Instituto da Paisagem se ocupa de duas linhas, história da cultura e da paisagem e estudos (contemporâneos) da paisagem (natureza e cidade). Acontece que a história e o destino das paisagens, em longas duração e daquelas em que vivemos, pode se encontrar de muitos modos. Este post é sobre isso.

Nesses tempos em que sucessivas queimadas destroem importante acervo paisagístico e genético do Brasil, o Pantanal, na sequência de tremendas destruições na Amazônia – um conjunto de biomas que integra inclusive nossa identidade como nação -, as imagens do campo em ruínas me fazem lembrar uma alegoria pintada no Palácio de Siena, que descreve o Bom Governo e seus efeitos no campo e na cidade, e o Mau governo e seus terríveis efeitos no campo e na cidade. No campo, assolado por vários males no mau governo, vemos as riquezas do campo em chamas e ruínas.

Estamos tão acostumados ao “governo de quem”, que nos esquecemos dos princípios que devem balizar nosso discernimento. Popper certa vez escreveu que mais importante do que quem está lá, é como os que não estão controlam quem está [no interesse coletivo e público]. Desenvolvemos mais a disputa pelos cargos e proeminências do que sua necessária legitimação contínua, como se nota pela frequência em que a Constituição é alterada ou que eventos passionais e midiáticos parecem comandar a política (no sentido menor da palavra). Daí o extraordinário sentido memorial da sala do Conselho de Siena, no Palácio Comunal da cidade.

No afresco, pintado por Lorenzetti cerca de 1339, o mau governo do Tirano (como é chamado ali o mau governante) é conduzido e inspirado pela Avareza, pela Soberba e pela Vangloria e, não bastasse essa péssima trindade de inspiração egocêntrica, é ainda aconselhado pela Crueldade, pela Traição e pela Maldade, contando como seus principais instrumentos o Furor (e o terror), a Discórdia e a Guerra.

Esse impressionante material, representando o Bom e o Mau Governo e os efeitos de cada um foi pintado em três paredes da pequena sala em que o Conselho da cidade se reunia: devia lembrá-los constantemente de suas responsabilidades cívicas, acima dos interesses pessoais, em defesa da equidade na república de Siena. Ao entrarem, deparavam-se com o painel do Mau Governo e com os Eefitos do Mau Governo na Cidade e no Campo. Felizmente, ao olharem em outra direção, viam na parede ao lado o Bom Governo e na seguinte os Efeitos do Bom Governo na Cidade e no Campo, que incluíam, ao contrário da opressão e destruição do mau Governo, a produção e os serviços, a alegria e a celebração, o trabalho e o ensino. Visão impressionante para cerca de 1339, quando o painel estava sendo pintado.

Seria de se esperar que, não só não houvéssemos esquecido essas lições milenares, mas que no tempo decorrido houvéssemos inclusive aprimorado as práticas e a compreensão do sentido público do governo e da república, palavra latina que aliás significa “coisa que é pública”. Pensamento que deve ser diametralmente inverso ao do Tirano, que entende que o público diz respeito a ele e aos seus, pairando não só acima da justiça, mas contra a justiça e comprometendo as riquezas da república, expressas no bom governo pelo seu povo e seu território e pela concórdia.

Que tenhamos muitas oportunidades de discutir, pensar e praticar o bom governo e discernir o mau governo, de preferência construindo decisões coletivas e cidadãs.

Euler Sandeville, 20 de setembro de 2020

Palacio Comunal de Siena, Efeitos d oMa lGoverno, 1338, Ambrogio Lorenzetti (1290-1348)

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