natureza e artifício: o imaginário, as representações e as práticas

NATUREZA E ARTIFÍCIO: O IMAGINÁRIO, AS REPRESENTAÇÕES E AS PRÁTICAS

Euler Sandeville Jr. agosto de 2020

Este texto foi escrito como um subsídio sintético a conteúdos do site e para alunos das disciplinas com essa temática. Como a temática das representações é um eixo condutor desses trabalhos, a primeira coisa a se distinguir é que o modo como emprego representação aqui vai bem além da representação como imagem ou figura. Embora incluindo-as em toda a sua densidade antropológica, tanto quanto inclui a materialidade do espaço em que necessariamente se realizam as práticas humanas (o termo espaço é tratado, com algumas observações, no sentido dado por Mílton Santos 1985, 2002, aqui trazido ao campo das representações), o sentido primeiro que dou a representações remonta ao campo das visões de mundo, com a sua implicação dialética de valores e práticas decorrentes.

As representações, o imaginário, o simbólico, a ideologia, as práticas, são termos que, obviamente não significando a mesma coisa, estabelecem inúmeras sobreposições e sombreamentos entre eles, permanecendo a distinção entre esses termos tendendo a campos movediços. Condição rica da linguagem, minimizada quando se deseja aprisionar esses campos de significados em conceitos rígidos, por vezes tão necessários ao pensamento sobre o mundo. Essa riqueza da linguagem, por outro lado, ao invés de ser um problema de método, é uma potência significativa, já que emergem tanto do fazer quanto da subjetividade como condições indissociáveis, em que se insere nossa capacidade de pensar sobre o mundo, ainda quando a indagação intelectual os dissocie para tornar inteligível e comunicável o pensar sobre.

Uma discussão que acho interessante sobre representação e imaginário é trazida por Jacques Le Goff em O imaginário medieval (1994). No entanto, as representações são aqui entendidas na forma mais ampla, implicando tanto o imaginário quanto a ideologia, coisas bem distintas mas não estanques. A ideologia é aqui entendida como uma manipulação restritiva e reducionista das representações e valores (não eximindo a que se pretende contra-ideologia), dominando sua validação para um propósito específico potencialmente capaz de mobilizar e direcionar desejos, atitudes, ações.

As representações são entendidas, portanto, como as visões de mundo em todo o seu campo necessariamente amplo e difuso também, com sua complexidade poética, existencial e de mobilização e constituição de práticas, significados e valores, na sua contribuição e interatividade na configuração histórica do ambiente social e espacial em que se dão. As representações – e toda representação mobiliza um imaginário – são uma condição mental nas quais se constroem os significados dos mundos (histórica e subjetivamente).

Isto é, as representações, como o imaginário, ao contrário da ideologia que se expõe, ocultam-se e perdem-se, revelam-se e desvelam-se no comportamento, nos (des)afetos, e na produção de artefatos, objetos, cidades, obras de arte (por exemplo, a música, a pintura), hábitos, costumes, valores, ideologias e suas narrativas em disputa. Não se esgotam em sua materialidade (o que é claro nas artes), mas não existem sem ela ou alheias a ela. Trata-se do modo de habitar criativamente sua materialidade, na elaboração, na recepção, no registro e reinvenção do que deva ser sempre em processo, sempre em múltiplas temporalidades e espacialidades inter-relacionadas; sempre que, ocultando-se, revelam-se um pouco; sempre que revelando-se, ocultam-se outro tanto.

Daí também a expressão das paisagens como experiências partilhadas e vivenciadas, com suas contradições, e como construção social decorrente da interação do trabalho e da cultura humana na transformação contínua do ambiente (Euler Sandeville Jr., 2004, 2005, 2013; Ulpiano Bezerra de Menezes 2002).

Nesse sentido, o imaginário, a ideologia, a ciência, são formas nada estanques de representação do mundo, do estar no mundo, do mundo em que se reconhece estar. São visões de mundo em contradição ou afinidade, poéticas, trágicas, sociais, transgeracionais, interpessoais, subjetivas, espaço-temporais, concretizando-se no mundo da existência e das obras e formas do trabalho e do convívio humano. Do mesmo modo que a sociedade sem a construção de seu espaço ou as sem as relações de produção seria uma abstração discursiva, a sociedade esvaziada de suas representações e imaginário resulta esvaziada de significado. Portanto, abrigam potências e contradições poderosas embrenhadas, que em certas circunstâncias coletivas mostram-se em vias de tornarem-se liminar, exatamente quando são menos compreendidas na imersão em sua tensão, lembrando aqui Agamben (2009): conservação que entretanto a simples existência já implica em transformação.

REFERÊNCIAS CITADAS

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009 [2006].

LE GOFF, Jacques. Prefácio à 1a edição de O imaginário medieval. Trad. Manuel Ruas. Portugal: Estampa, 1994 pg 11 a 30.

MENEZES, Ulpiano Bezerra de. A paisagem como fato cultural. in YÁZIGI, Eduardo (org). Turismo e Paisagem. São Paulo, Contexto, 2002, pg. 65 a 82

SANDEVILLE JR., Euler. Paisagens e métodos. Algumas contribuições para elaboração de roteiros de estudo da paisagem intra-urbana. São Paulo: Paisagens em Debate n. 2, 2004.

SANDEVILLE JR., Euler. Paisagem. São Paulo: Paisagem e Ambiente n. 20, 2005, pg. 47-59.

SANDEVILLE JR., Euler. Paisagens partilhadas. São Paulo: Paisagem e Ambiente, 30 (2012), 2013, p. 205-214

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo, EDUSP, 2002.

SANTOS, Milton. Espaço & Método. São Paulo, Nobel, 1985.


como citar:

SANDEVILLE JR., Euler. Natureza e artifício: o imaginário e as representações e as práticas. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2020.


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Foto Euler Sandeville, Folha, detalhe, 2009.
Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.

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