diretrizes e valores (2019)

Adotamos metas ou diretrizes visando qualidades na pesquisa, nos processos educativos e no desenvolvimento mais pleno dos pesquisadores e do grupo, bem como dos parceiros que se identifiquem com esses valores. Essas metas envolvem três áreas:

a) a das relações consigo mesmo, com a orientação e com os colegas no grupo;
b) a dos compromissos do pesquisador-educador com a função social da pesquisa e do ensino;
c) a dos objetivos e qualidades das relações que os pesquisadores-educadores estabelecem no campo, e dos compromissos em nossos trabalhos com as pessoas envolvidas.

Esse conjunto de recomendações intenciona direcionar focos e estratégias. Entendemos que isso complementa, na relação entre nós e com nossos parceiros e com as populações, compromissos que o pesquisador deve ter em mente e que são afinados com os princípios da Espiral. Espera-se que contribuam e orientem nossas práticas nos nossos objetivos e princípios fundantes.

A seguir apresento essas diretrizes, que obviamente não se pretendem normativas, mas orientadoras. Não se deve confundir essas diretrizes com um procedimento normativo, pois não são. Estão abertas, e a sua transformação se verifica no amadurecimento cognitivo e emocional que ocorre no diálogo entre os participantes do grupo e com outros parceiros e grupos. Quando isso não ocorre, por vezes haverá um longo processo de compreensão de nossa incompletude, como dizia Paulo Freire, até que possamos reconhecer como uma oportunidade, nem sempre fácil, de autoconhecimento e amadurecimento.

a) Propõe-se como objetivos críticos consigo mesmo na construção de conhecimentos e busca de soluções:

. aprender em cooperação com outros parceiros, eticamente motivados a partir de um crescimento pessoal e do aprendizado no diálogo e na escuta do outro;

. estabelecer uma investigação crítica das próprias percepções e valores na interação com outras paisagens e sensibilidades, na construção conjunta com outras pessoas e grupos;

. desenvolver as pesquisas e estudos com inquietação intelectual e rigor acadêmico, sabendo que os trabalhos que realizamos nos transcendem e implicam responsabilidade social, sem anular a nossa dimensão sensível e cooperativa;

. estabelecer processos experimentais de vivência, sensibilização e crítica individuais e coletivas, a partir dos canais possibilitados pela produção de conhecimento e por formas de associação autônomas em relação a ela, a partir de programas de conhecimento-ensino-aprendizagem;

. desenvolver pesquisas e programas vinculados a esta proposição, fundadas em uma base ética e com uma preocupação social ativa, que problematizem e contribuam para o avanço do quadro referencial e metodológico do grupo na respectiva linha de pesquisa, a partir do enfrentamento das problemáticas específicas de cada projeto;

. contribuir na organização e aprofundamento de grupos de estudo e dos seus processos críticos e criativos, de construção e apropriação referenciais teóricos, compreensão de processos históricos e socioambientais contemporâneos.

b) Propõe-se como objetivos na relação pesquisador-educador-universidade-sociedade:

. confrontar o ambiente acadêmico com formas de valoração e organização externas a esse ambiente, esperando gerar uma tensão crítica que contribua para discutir o papel do conhecimento narrativo (prosaico) próprio do discurso acadêmico e de processos criativos decorrentes da sensibilidade (poética);

. estabelecer com nossos parceiros em nossos projetos processos solidários de mutualismo, visando acesso e produção de conhecimentos criativos e críticos, acesso ao ensino, produção de diagnósticos e de proposições socioambientais, promovendo capacitação mútua e ações transformadoras do ambiente;

. desenvolver métodos e programas de trabalho, de educação e memória, fundados no ideal do ensino e do conhecimento livre, independente e ativo, e a capacitação para formação de novos pesquisadores e docentes, ampliando o acesso ao conhecimento e suas estruturas integrado em programas de ação efetiva.

c) Propõe-se como objetivos na relação pesquisador-educador-comunidade-espaço urbano:

. pensar processos criativos e cognitivos na vida cotidiana e na memória da experiência vivenciada como fundamentais a uma ação transformadora do ambiente, entendendo-nos partícipes dos destinos comuns do espaço social e das paisagens;

. colaborar com os processos criativos e motivacionais, em diversas formas e percursos que almejem vias alternativas e autônomas de gestão coletiva, produção solidária, e convivência;

. contribuir, pela experimentação direta e coletiva de formas colaborativas de gestão e aprendizado, para a discussão de um ensino universitário e básico experimental e ancorado na capacidade de produção de conhecimento solidário e livre, sem prejuízo de outras formas e outros projetos pedagógicos;

. contribuir para a promoção de autonomia crítica na produção de conhecimentos acadêmicos e na compreensão histórica das visões de mundo, da produção das paisagens e das formas de convívio em diferentes épocas, inclusive a contemporaneidade;

. contribuir na interpretação do ambiente, na identificação de seus problemas e na capacidade de propor e construir soluções estratégicas e de monitoramento das condições básicas da qualidade de vida e das paisagens, incluindo conhecimentos ambientais, de saúde e educação em projetos integrados;

. reconhecer o direito fundamental das populações e pessoas envolvidas de serem informadas sobre a natureza e os  procedimentos das atividades desenvolvidas e seus registros e no caso de integrarem os processos de construção manifestando seu desejo de fazê-lo ou não;

. reconhecer como um direito fundamental dos parceiros externos o acesso aos resultados dos trabalhos, e com o compromisso do pesquisador de esclarecer dialogicamente e discutir esses resultados com os colaboradores, em um processo aberto e participante de discussão.

Esquema conceitual da Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento, concepção Euler Sandeville Jr., 2002

aprender com a cidade, aprender na cidade


para citar este artigo:

SANDEVILLE JR., Euler. “Diretrizes e Valores”. Ensino e Pesquisa + Instituto da Paisagem, on line, 2019.


 

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